sexta-feira, 31 de julho de 2009

Future Me


Já imaginou, daqui a 29 anos receber um e-mail mandado por seu eu de hoje? Que tipo de coisas você diria? E que tipo de reação teria? Provavelmente até lá você já terá se esquecido até de que tinha mandado. A melhor parte é a sensação de viagem no tempo, sem dúvida.


Mandei menos de um ano atrás e já nem sei pra quando eu mandei, nem o que estava escrito nele.

Lang-8




Pra quem estiver estudando qualquer idioma, o Lang-8 é bem interessante, de verdade. Nele, o foco é na escrita, ou seja: você escreve um texto, e lá vem um nativo do idioma que você está estudando corrigir, se tiver falhas. Aí você pergunta: "como eu vou saber se ele tá me ensinando certo?". Pois bem, aí que está o pulo do gato: necessariamente, cada usuário deve colocar sua língua nativa, assim como a(s) língua(s) que está aprendendo, de tal maneira que todos são ao mesmo tempo professores/alunos. Além disso, cada correção feita pode valer pontos cumulativos, valorizando seu esforço.

Arrisquei um perfil por lá e, no primeiro texto, em 3 minutos três pessoas já tinham corrigido. Nada mal esse feedback hein? Mas é bom atentar pra o fato de que, pelo que tenho percebido, o pessoal não ajuda quem não ajuda: se você não tem um pontinho sequer de correção em textos de usuários que estejam aprendendo sua língua, é bem capaz de que ninguém venha dar uma olhadinha nos seus também.

Antes que perguntem, já surgem automaticamente os últimos textos disponíveis pra você corrigir, em um espaço similar ao "home" ou "página inicial" do Orkut. Bem, de qualquer forma, melhor olharem com seus próprios olhos e começarem a escrever, porque vale a pena. Começar um diário em outro idioma assim ainda é mais indicado justamente por causa das correções de seus eventuais escorregões, e ainda se ganha de brinde mais alguns colegas virtuais...

Recomendado!

Intercâmbio astrológico

"Airy Gemini and enthusiastic Dragon combine to make a real character. These people have a razor sharp wit and are verbally adroit.

"Gemini Dragons are not fools, they use humour to make a serious point and are very principalled You're probably one of the best gifted persons of the Chinese and Western zodiacs. And this is often your drama! Indeed, if you can succeed in practically everything, you also have an interest in everything, whence difficulties of choice. In fact, you can know success only if you can manage to fix yourself and to devote your energy to a well defined art or job.

"You possess much charm and powerful personal magnetism. One cannot count the number of your friends and acquaintances. However, you can have violent and sudden fits of anger. In spite of your beautiful self-assurance, you are not immune to moments of depression and disarray because you don't know how to spare your forces or foresee an escape issue.

"Having many good ideas and vast projects, you don't bear mediocrity. You're extraordinarily gifted for theatre, acting, painting, writing, and financial matters. You always tend to have too big ideas, which can cause you failures because of lack of means.


"Loyal in friendship, you're rather unstable and indecisive in love. You give your preference to conquests that flatter your prestige or that make you accede to a social or mundane position. Status is an important element in your union or marriage."

Mistura de astrologia ocidental e oriental (no caso, os do autor deste blog, Gêmeos e Dragão).

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Vox nihili


Uma opinião de verdade necessariamente envolve fundamento. Dizer somente "é bom" ou "é ruim" nada mais é que uma casca vazia, uma estrutura frágil como uma bolha, um fiapo de ideia que a qualquer momento pode esvanecer com um mero sopro contrário. É vox nihili, é voz do nada.

Opiniões vox nihili são facilmente reconhecíveis, simplesmente porque não têm fundamentos que obedeçam à um raciocínio lógico, e quando os têm, são vagos, extremamente subjetivos e pouco concretos. Nascem, tipicamente, do pouco pensamento, ou em pior hipótese, da escassa construção do pensamento. Não há suficiente material racional pra construí-lo.

Essas pestes se escondem atrás da aparente fortaleza da subjetividade para bloquear qualquer tentativa de se racionalizar a questão. Apenas porque é uma questão de gosto não significa que não existam razões/causas para isso. Certamente, se essas razões/causas são corrompidas, ou falsas, ou ilusórias, bem, aí já é outra história.

O fato é que uma opinião real constitui em si um fundamento racional. Em outras palavras: sem fundamento dessa natureza, essa opinião se transforma em nada, e, particularmente, entra por um ouvido, sai pelo outro. É vox nihili.

Fuja das expressões vazias e sem sentido, das opiniões vagas e frágeis. Quem mais sai perdendo é você que opina, porque além de economizar pensamento valioso na hora de se expressar, ainda gasta o tempo daquele que está te ouvindo/lendo, o que é realmente lamentável, não acha? Por isso, da próxima vez que não ter gostado de "Aventuras de Zuzubalândia", ao invés de falar "uma porcaria, não tem enredo, os personagens são totalmente apáticos", comente algumas razões minimamente lógicas que o levaram a chegar a essa conclusão. Sem isso, sua opinião correrá o sério risco de cair no vazio.

Obviamente, existem exceções que pertencem, essas sim, a algumas áreas pouco afeitas à racionalização, como aquelas que regem o amor profundo e a felicidade plena: nesses, a lógica simplesmente deixa de funcionar.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Estar ou não ser?


O verbo "To be" da língua inglesa é comumente traduzido como o mais elementar e essencial de todos: ser/estar. Mas, como podem ver, em inglês não há diferença linguística para dois fenômenos tão distintos. Enquando "ser" denota um estado de existência a priori permanente, o "estar" indica uma condição passageira. É diferente falar "sou doente", e "estou doente"; "sou chato", e "estou chato". Além de permitir uma variedade de expressões, de outro modo impossíveis de se realizar em vários idiomas, comporta em si uma representação verbal da própria forma de se enxergar o mundo e a si mesmo.

Na verdade, seria óbvio que houvesse essa diferença, afinal, era de se crer que o ser humano soubesse diferenciar o ser do estar, o que é do que está sendo. Mas ela simplesmente não existe. E isso me deixou bastante atônito na primeira vez em que percebi essa disparidade inexistente em outras línguas conhecidas.

Claro, alguém pode argumentar, com um recurso deveras filosófico, que o ser nada mais é que a permanência prolongada do estar, de maneira que o estar é permanente, e o ser, inexistente, pois a idéia é que a matéria é mudança constante e infinita, e jamais será a mesma no mesmo local e instante. Mesmo que algo esteja aparentemente imutável e permanente, a níveis quânticos, os elétrons de seus atomos estarão em posição diferente a cada instante, e assim, movimentar-se-á a essência do objeto, fazendo mais com que ele "esteja", do que propriamente "seja".

Certamente é uma contraposição válida, mas no dia-a-dia não nos preocupamos muito com o movimento e o momento dos elétrons na hora da comunicação. Daí, pois, podemos considerar que a diferenciação entre "ser" e "estar" é mais sócio-filosófico que propriamente quântico-filosófico, posto que habitualmente podemos distinguir como "ser" aquilo que o objeto representa de si mesmo a maior parte do tempo visível, ou pelo menos o que cremos que ele seja. Paralelamente, o "estar" formaria um momento intermitente, dentro do qual o objeto não é assim, mas devido a alguma razão, está assim, em dado instante.

Dada a diferença, refletimos: a linguagem é o meio pelo qual organizamos nossos pensamentos sob uma forma inteligível a alguém, e, sendo inclusive o pensamento não raro transposto no idioma que se conhece, ergo, podemos auferir que a linguagem também é o instrumento pelo qual existimos em nós mesmos.

Aí reside o horror da questão: se há línguas - e por consequência - pensamentos que não apresentam diferenças óbvias e extraordinariamente essenciais como ser/estar, que tipo de omissões estará fazendo a língua portuguesa quanto a outros termos, tão ou mais importantes, que existem em outros idiomas, e que simplesmente ignoramos? E, pior ainda, mesmo sem conhecer, provavelmente viveremos o resto de nossas vidas sem maiores transtornos linguísticos por não perceber tais obviedades.

O óbvio certamente tem maneiras complexas de se camuflar na sua própria simplicidade.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Ordinárias Invenções Extraordinárias #1

Nasce uma nova seção! Dedicada, obviamente, à pequenas (ou grandes) invenções que deveriam ser aparentemente óbvias, mas que por algum motivo, ou ainda não foram pensadas, ou o foram, mas, Deus sabe o porquê, ainda não colocadas em prática.

#Refrigerante em Tablete#

Para quem está resfriado, ou no começo de gripe, geralmente recomendam-se doses de vitamina C concentradas, que vêm em forma de discos laranjas em embalagens cilíndricas, e dissolvem na água. Bem, eu particularmente acho o gosto muito bom, e é de tal forma prático que, afinal, por que ainda não inventaram antes um refrigerante assim?

Imagine um desses mini-discos, sendo que de Coca-Cola. Coloque água em um copo, e jogue o "comprimido". Espere cerca de um minuto, e pronto, eis um belo espécime de bebida refrescante! Não parece maravilhosamente prático?

Modéstia à parte, eu particularmente achei genial. Praticamente uma epifania gasosa.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Diário de um Barbudo

Hoje faz um mês e vinte e oito dias que não faço a barba. Longa jornada. O mais impressionante é que não sei explicar muito bem o porquê. As pessoas tentam, mas não ajudam muito. "Perdeu aposta?". "Virou revoltado?". "É promessa?". "Vai encenar Jesus Cristo, meu filho?". Bem, eu acho que é mais ou menos um pouco de cada coisa (menos a parte de Jesus). A melhor resposta que já dei, creio, foi quando disse que era uma "experiência estética".

É divertido, mas
assustador, ver a reação das pessoas. Tem gente que não liga, mas são poucos. A maioria faz sempre a mesma exclamação, meio pergunta, meio assombro: "Que barba é essa!?!?". Eles não vêem, mas eu rio muito por dentro. Não deles, mas da situação, claro. Haha.

Também tem aqueles agressivos, que só faltam me arrancar os cabelos do rosto, horrorizados como se isso fosse um crime bem punk, como, vamos ver, genocídio, ou coisa que o valha. "Vai tirar AGORA!". Quem mais se encaixa nesse quadro são alguns anciões da família e outros tão conservadores quanto.

Ah, mas também tem aqueles que gostam abertamente. Alguns são mais sinceros que outros, que gostam de incentivar as polêmicas. Mas, bem, fico sensivelmente mais feliz quando elogiam minha nova figura. E quem resiste a elogios? Eu não. Mas, infelizmente, para os fãs, ela já tem data para ir embora: 1° de Janeiro de 2009. Não chorem, ela volta assim que eu tiver disposto mais uma vez.

A parte mais interes
sante é a investigação sociológica (soou petulante, mas foi sem querer). Barbudo, consigo fazer breves considerações sobre o comportamento humano que de outro modo não poderia. Eu realmente gostaria de citar novidades e grandes elucubrações de meu pequeno pseudo-estudo, mas eu não as tenho. Agora. Após um período de férias da experiência e do flerte com a maturidade visual viking, talvez faça considerações especiais por aqui mesmo, pra quem quiser ler.

Para finalizar, uma frase que achei bastante conveniente e, por que não, lisonjeira:


"A man with no beard is half a man!"



segunda-feira, 24 de novembro de 2008

It's All About Music

Acredito que a música molda a personalidade.

Sim, e o faz de maneira impressionante e bastante perceptível, para aqueles que prestam atenção. Não estamos falando de classificações e tribos urbanas, como, "forrozeiros", "metaleiros", "sertanejos", e coisas afins. Falamos da função primordial da música, que é a de nos fazer sentir bem, independentemente do tipo de música que ouvimos. As escolhas que fazemos em relação à tudo aquilo que adentra pelos nossos ouvidos nos fazem pessoas, no mínimo, mais diferentes, e isto repercute não apenas dentro de sua própria cabeça, mas também no seu círculo de contatos sociais, e até mesmo em sua saúde mental.

Falemos, pois, de algumas considerações genéricas. Em primeiro lugar, se você gosta de ouvir um tipo A de música, é provável que você também se relacione com pessoas que também gostem de ouvir A. Dessa forma, a probabilidade de vocês irem à um evento ou ambiente em que a música A seja freqüente é bastante considerável. E é, dentre outras coisas, à partir dos lugares que você freqüenta e das pessoas com quem você anda que sua personalidade vai sendo construída.

Quando alguém fala que é eclético, e que ouve de tudo, minha primeira reação é de descrença. Simplesmente porque se tudo entra em seu ouvido, e você a tudo gosta, então ou você é completamente indiferente à música (coisa, devo dizer, bastante triste), ou você realmente tem um ouvido que é um terreno baldio. Claro que existem pessoas maravilhosamente ecléticas, mas até para elas existem limites. Inclusive, considero muito interessante conhecer pessoas com uma vasta biblioteca musical na cabeça. Mas dizer "Sou eclético, gosto de forró à axé, de pagode à funk", perdão, mas isso não é bem o que se pode chamar de eclético...

Há ainda aqueles com instintos tribais e fanáticos, que só ouvem um único tipo de música, e de quebra, ainda menosprezam e até odeiam as demais. Isso é comum, e só pra citar um exemplo, prático, alguns entre os "metaleiros", que se autoproclamam como tal e tecem sanguinárias críticas à gêneros musicais mais populares, como o pagode. Ok, o inverso também existe, mas só pra alertar os simpatizantes: gosto muito de ouvir metal. Não ouço com freqüência músicas de pagode. Mas, já ouvi muito heavy metal horrível, e músicos de pagode realmente admiráveis. Na dúvida, ao invés do rótulo, escolha a boa música, que há em todos os campos. É bom não deixar que a má música feita sob um ou outro rótulo deixe uma má impressão generalizada; assim como poucas coisas no mundo são absolutas, certamente a necessariedade da relação entre gênero e qualidade musical também não o é.

E o que é boa música? Creio que seja o tipo de música que você ouve que atiça ou não sua imaginação, que te traz sensações e energias que tipos B ou C não provocam. E é justamente essa explosão de energia musical que te faz gostar do tipo A ou B. Certamente, nem sempre é tão violento quanto uma explosão, pode ser através daquela tranqüilidade cerebral, aquele gosto de quero ouvir de novo, ou mesmo a terna sonoridade da boa música. Tanto faz. Tanto faz também o tipo de música. Pode ser A, B, C, ou mesmo BCA ou ACB, misturando tudo, porque eu acredito que, o que de fato importa, não é propriamente aquilo que se escuta, mas sim o quanto ela te faz ir do êxtase ao desespero, da angústia à euforia, da saudade à obstinação: afinal de contas, é a música a mais intensa das artes.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Discurso, Verdade e Poder: A Sociedade Japonesa na Segunda Guerra Mundial


Teorizar acerca das estruturas que permitem ao discurso o poder que lhe é inerente reforça a idéia de que a essência da verdade em si se encontra amplamente acorrentada à idéia de convenção social e reinvenção do que é verdadeiro a partir de uma transformação social. Diz-se que a história é escrita pelos vencedores, e sendo assim, partindo-se do pressuposto de conflito de classes permanente da civilização humana (segundo os teóricos do socialismo Marx e Engels) e da concepção de que a história propriamente dita nada mais é que uma constatação de fatos, podemos refletir sobre a mudança que pode ser apontada para o caráter de verdade no movimento do fluxo histórico.


O detentor do poder econômico molda o modelo de verdade que deve ser adotado por todos os grupos, levando assim a uma reconstrução de dogmas sociais a cada período revolucionário. O poder da palavra advém do modo como o processo histórico é reescrito no decorrer dos anos, fornecendo às gerações futuras conhecimento, de modo algum holístico, mas bastante parcial com relação à determinada época, provocando a quebra de uma verdade que seria mais pura e originando um estilhaço da verdade refletindo a parcialidade do discurso.

Os grandes conflitos da humanidade são povoados de discursos unilaterais que regem os sistemas de cada parte envolvida, um universo multipolar de verdades absolutas corroídas pelo desejo de poder e dominação. O principal objetivo desse totalitarismo verbal nada mais é que um foco na ação dos indivíduos que compõem a nação de forma a direcioná-los de acordo com os objetivos desejados por aqueles que detêm o poder do discurso, e, por conseguinte, o poder de criar uma verdade, mesmo que numa visão mais ampla da situação ela se mostre falsa. Discernimento para diferenciar tais opostos é, de fato, um caminho deveras complexo, permeado de dúvidas e desilusões.

Dentro do contexto da Segunda Guerra Mundial, um dos mais catastróficos exemplos bélicos da história do homem, surgem dois pólos dualistas de confronto: o nazi-fascista, encabeçado pelo eixo Itália, Alemanha e Japão; e o democrático, liderado pelos Estados Unidos, França e Grã-Bretanha. A sociedade japonesa, nosso atual objeto de estudo, situar-se-á nesse período conturbado de trevas, onde a iminência de armas de destruição em massa e uma nova onda ideológica assombravam as nações.

No final do século XIX o Japão vivia os últimos resquícios do feudalismo e da política de isolamento imposta pelos Tokugawa, quando da derrocada do Xogunato e ascensão dos Monarquistas (estes defensores do Imperador e de uma abertura do país ao Ocidente). Com o Imperador Matsuhito instaurando a Era Meiji, logo após a derrota dos xoguns e dos daimiôs, iniciou-se uma nova era para a nação nipônica, visto que a influência ocidental foi de grande importância para tais transformações.

Em tese, o povo japonês, diante da modernidade em vários aspectos do Ocidente, desejava alcançá-lo a fim de configurar-se no mais alto patamar da hierarquia mundial. Em outras palavras, o senso hierárquico de tal povo era forte o bastante para dar a cada elemento o seu devido lugar, respeitando a ordem do superior por sua demasiada responsabilidade e exercendo o papel de tutor ao seu inferior; buscava, baseado em seus ideais nacionalistas, ser líder dentre as grandes nações. Apenas através de uma política de conquistas pretendiam alavancar o Japão como uma potência a partir de atos bélicos como a invasão da Coréia, de Taiwan, e da região da Manchúria nas primeiras décadas do século XX.

Sob essa perspectiva, podemos considerar, então, que o perfil do governo japonês assemelhava-se nos quesitos de alto nacionalismo e desenvolvimento armamentista aos dos contemporâneos governos fascistas (como Hitler, na Alemanha, Mussolini, na Itália, e Franco, na Espanha), embora em seus objetivos se diferenciarem destes profundamente. Envoltos pelo discurso de grandeza, partiram para um lugar, seu “devido lugar”, na esfera global, mesmo que isto inferisse no conflito armado com outros povos (como os coreanos e chineses). É em tal ambiente psicológico que se encontra a sociedade japonesa pouco tempo antes da eclosão da Grande Guerra.

Dadas as informações supracitadas, partamos agora para uma análise mais detalhada das funções do poder e da força verbal. Mesmo durante as guerras civis envolvendo os exércitos leais ao xogun e os monarquistas, havia uma grande confusão acerca dos objetivos e das motivações de cada lado. Inverdades e falsas informações eram disseminadas em cada extremidade como verdades íntegras de valor e sentido, fornecendo margem ao ódio e à fúria. Ora, que melhor combustível poderia inflamar ainda mais o sangue de um homem que aquele da palavra envenenada? A manipulação do poder, e do que constituía de fato o poder em si, era uma questão chave para o sucesso de qualquer dos lados. O manejo de um discurso correto significava um grande passo rumo à vitória.

A partir do momento em que o Imperador passou a ser um simples fantoche nas mãos de um líder militar (o xogun), o jogo de palavras acentuou-se ainda mais, descaracterizando a figura sacra do descendente direto da grande deusa Amaterasu como apenas um enfeite belo e santo no topo de todo o Japão. A verdade dos deuses, repassada ao Imperador, e concedida ao xogun por meios misteriosos, pois, na meta de preservar a figura do líder religioso, o líder militar assumia a responsabilidade para com os assuntos considerados “mundanos”, agarrando para si o poder de governar uma nação em nome do Imperador. Controle do poder, exercício de soberania, pois, apenas com o domínio das palavras sagradas e do discurso valorativo pôde se alcançar o nível de concentração de posses que caracterizou o Xogunato. Com o advento de Commodoro Perry, da marinha americana, e sua ameaça aos portos de Kyoto tempos depois, forçando a abertura destes, iniciou-se o processo que culminou com as diversas batalhas que levariam ao fim do feudalismo e início da Era Meiji.

Chegando, enfim, ao período ativo do Japão durante a Segunda Guerra Mundial, percebemos um fato extraordinário que não há de se deixar passar em branco. Muito se aclama acerca dos kamikaze que devotavam sua vida ao bem do seu país. Contudo, ressaltemos que o senso de consciência de coletividade dos japoneses é um caso raro na história, pois reflete uma enorme homogeneização, resultando na maior facilidade de canalização de ideologias e vontades. Junte-se a isso a noção rígida de hierarquia, e presenciamos um exército de praticamente autômatos prontos a realizarem sua missão, sem ao menos duvidar do por que disso ou daquilo e fornecendo uma via mais poderosa para a efetividade de uma ordem superior. A verdade de poucos, mesmo que inapta e decadente, acaba por decidir o destino de muitos sem que estes sequer questionassem tal verdade, procurando varrer da mente aquilo que nos faz tão humanos, que é a própria dúvida. A palavra do superior, absoluta acima de tudo, embora partindo de um ser imperfeito e submetido a erros de formulação e a emotividade humana. Afinal, que verdade haveria de ser posta aos olhos daqueles que lutam senão a verdade de seu próprio lado? E se fosse mostrada mais de uma, o que iria curar o princípio da incerteza, fatal numa guerra? Será que, para tais pessoas, não existiria uma única verdade, pura e simples? Que verdade não haveria de parecer absurda senão aquela que lhes foi imposta?

A concepção de verdade revela apenas a fragilidade dos conceitos humanos ante o mundo que o circunda e as relações que desempenha entre si próprio e o indivíduo com quem interage. Mentiras e falsidades podem ser verdades, e o inverso também recíproco. Qual a referência para isso? Com que certeza podemos distinguir verdades e mentiras? E, mais do que isso, por que às vezes damos nosso sangue em prol daquilo em que acreditamos piamente, mesmo sem pensar se talvez isto não seja tão certo? E de certa forma, quem somos nós para criticar a posição tomada por outrem ante sua própria concepção do verdadeiro?

A dúvida nos ensina a caminhar com o nosso pensamento. Duvidar de tudo nos torna céticos, duvidar de nada nos torna ingênuos. Duvidar apenas, eis algo que pode ser pensado com coerência. Contudo, apenas este ato, e toda a convicção de um soldado que está frente a frente com o inimigo poderá se esvair em um segundo, assim como o término de sua própria existência. Daí a grande importância de um discurso único, forte, de verdade imbatível, simples e, portanto, insofismável. A diferença entre viver e morrer apenas embasada em uma crença talvez até infantil, mas se inabalável, capaz de levar uma nação inteira à vitória.

Diante dessa capacidade intrínseca ao valor do discurso, a linguagem nos torna subservientes a ela e engloba também o que nos torna aptos a ver o mundo. Foi apenas através da escrita que pudemos transmitir pelos séculos nosso conhecimento e vivência enquanto seres humanos sem nos desvirtuar tanto o quanto nos proporcionaria uma transmissão verbal.

Quando, na frente de batalha, ocorria uma derrota, os meios de comunicação prontamente assumiam que as autoridades responsáveis já haviam calculado e previsto que tal fato viria a acontecer, explicitando também que providências cabíveis já estariam sendo tomadas (mesmo quando, na maioria das vezes, tal coisa tenha sido totalmente inesperada). Até mesmo na mais crucial das derrotas, isto ocorria, e os que recebiam tal informação acreditavam (a fonte da informação, se do governo, conferia um status de superioridade, e, portanto, alta hierarquia). Isso, de fato, auferia segurança, bem inestimável em tempos de guerra. O que teria acontecido se toda a verdade fosse revelada? O valor da verdade pura nem sempre é benéfica, quando daí tiramos a conclusão de que até mesmo as mentiras são necessárias, tanto quanto a própria verdade. Portanto, que haveria de discurso sem a não verdade? Sem um oposto para fornecer-lhe um antagonismo, será que existiria verdade de fato, ou apenas o que é em si, sem julgamentos axiológicos em torno dele?

Retornando ao motivo citado inicialmente, o medo, este o pior dos inimigos, de perder o controle, de estar diante de algo, acima de tudo, desconhecido, não seria a maior derrota de todas? Quão sábia foi a atitude da mídia oficial ao relatar-lhes isso de tal modo? O poder da palavra vem principalmente do grande sentido destas: palavras são conceitos, e conceitos são visões limitadas de uma realidade abstraída. Se no discurso as palavras são as chaves para a transformação da realidade, são, também, as portas para a delimitação de um sentido real e, na lógica humana, verdadeiro. Em suma: palavras são verdades dispostas, deliberadamente ou não, em um sistema denominado linguagem.

Com a derrocada do Eixo, ao Japão foi forçada a rendição, e o ataque de duas bombas atômicas de terrível efeito ao arquipélago. O Imperador perdeu seu status de divindade na Terra e passou a agir de acordo com uma constituição pré-ordenada pelos Estados Unidos da América. Foi também coagida à devolução das terras tomadas antes à Guerra, e severamente limitado seu contingente militar. A partir de então, uma nova identidade se aplicava à nação japonesa, quando os EUA ofereceram-lhe o Plano Colombo de ajuda financeira. Seu caráter capitalista começaria a ser desenvolvido.

A história, de fato, é escrita pelos vencedores. O discurso ocidental americano saiu vitorioso, e suas verdades foram aceitas. Suas concepções e seu estilo de vida, assimilados. Sua glória legitimou suas ideologias e conceitos, manifestando-se através de sua cultura e sociedade. O poder estava, agora, em suas mãos, a genuína força motora de um novo mundo. O que haveria de mudar se as coisas não tivessem corrido dessa forma? E se o outro lado tivesse vencido? É certeza que os perdedores sofreriam o mesmo processo esmagador que ofereceria a imposição de uma ordem similar. Verdades por outras verdades, mentiras por outras mentiras, discursos por outros discursos, tudo haveria de mudar, embora não em essência conceitual. Contudo, o único elemento que jamais sofreria um único espasmo em seu âmago seria o sentido de poder. O poder que sobrepuja e cunha o que deve ou não ser verídico, e naturalmente, o que deve ou não ser falado: o discurso do poder em si.

BIBLIOGRAFIA

BENEDICT, Ruth. A Espada e o Crisântemo. Ed. Perspectiva, Coleção Debates, 1986.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 11ª Ed. Editora Ática, 2000.
FOULCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. Ed. Gallimard, Paris, 1970.
NIETSZCHE, Friedrich. Sobre a verdade e mentira no sentido extra-moral. 2ª Edição. In: Coleção Os Pensadores, 1978.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O Monstro Eleitoral

A democracia tem coisas certamente tão complexas quanto incompletas...parece coerente dar abertura à candidatura de todo e qualquer tipo de [supostos] representantes das comunidades locais. Mas não é.

Obviamente, não há de se falar aqui em impor restrições grotescas ou limitações do gênero, mas acredito que seja um dever dos partidos políticos selecionarem com um critério mais rigoroso os candidatos a vereadores que defenderão as cores da organização. De outro modo, como é o caso, o que algumas vezes, a princípio, tem o objetivo de parecer propositadamente jocoso e, pasme, contestador, acaba por sujar a imagem do cenário político como um todo com figuras de diversão e chacota.

Não tenho lá muita experiência política, mas creio que este definitivamente não é o caminho certo para se solidificar a desejada seriedade política. Ou será que é, e eu não sei? O caso é que, com essa vasta "seleção" de candidatos despreparados até para divulgar suas possíveis propostas , quando raramente as tem, no mínimo podemos dizer que é bastante duvidoso o papel que desempenharão, caso consigam ser eleitos.

No mais, em 90% do tempo do horário eleitoral na TV, ou rimos, ou choramos. E como ninguém aqui costuma derramar lágrimas pela política local, contentemo-nos com o show de humor que só os nossos candidatos podem oferecer.